Folha de São Paulo, 19 de Novembro de 2005
Mega-observatório captura raio
cósmico
CÁSSIO LEITE VIEIRA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Nesta semana, o Observatório Pierre Auger, a maior
instalação da Terra
para o estudo de raios cósmicos ultra-energéticos,
divulgou e discutiu
seus primeiros dados científicos. O principal objetivo desse
imenso
laboratório terrestre, que se estende por milhares de
quilômetros
quadrados nos pampas argentinos, é desvendar a natureza e a
origem das
partículas de maior energia do universo.
Raios cósmicos são núcleos atômicos que
penetram a atmosfera terrestre e, a dezenas de quilômetros acima
do solo, chocam-se com átomos que formam o ar. Essa trombada
causa um tipo de reação em cadeia cujo resultado é
uma "chuveirada", que viaja rumo ao chão quase à
velocidade da luz (300 mil km/s) e pode chegar lá contendo
bilhões de partículas. Esse chuveiro aéreo pode
cair sobre dezenas ou centenas de quilômetros quadrados no solo.
O nome do projeto, por sinal, é uma homenagem ao físico
francês Pierre Auger (1899-1993), descobridor desse
fenômeno.
Neste momento, o leitor está sendo bombardeado por esses
invasores espaciais, que penetram, sem causar danos, seu corpo na taxa
de dezenas por segundo. Não adianta se proteger: algumas dessas
partículas atravessariam incólumes camadas com
trilhões de quilômetros de chumbo.
As partículas que desencadeiam a chuveirada lá no topo da
atmosfera podem ser divididas em três categorias, segundo a
energia que carregam. Os pouco energéticos vêm do Sol.
Já é consenso que as que chegam lá em cima com
energias moderadas são aceleradas pela explosão de
estrelas no final da vida (as supernovas).
De onde?
Os ultra-energéticos, porém, são um
mistério. De onde viriam? Que tipo de mecanismo cósmico
estaria imprimindo brutal energia a esses núcleos, fazendo-os
atingir 99,9999999999999999999999% da velocidade da luz? "Essas duas
questões estão entre os dez enigmas mais importantes da
ciência deste século", diz Ronald Shellard, físico
do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de
Janeiro, e adepto de primeira hora do projeto.
Para se ter uma idéia, um núcleo ultra-energético
chamado zévatron pode carregar a mesma energia que uma bola de
tênis sacada com entusiasmo por Guga nos seus bons tempos. Nada
mal para algo bilhões e bilhões de vezes menor que um
grão de areia. Se um zévatron pesasse um miligrama, seu
impacto contra a Terra seria equivalente ao de um asteróide com
a massa do monte Everest, viajando a 200 mil km/h.
Quanto mais energéticos, mais raros são os raios
cósmicos. Os zévatrons caem na Terra em um fluxo
decepcionante: um por quilômetro quadrado por ano ou, em alguns
casos, por século. Para driblar esse inconveniente, a
saída foi espalhar detectores pela maior área
possível. No caso do Auger, 3.000 quilômetros quadrados,
ou seja, três vezes o município do Rio de Janeiro.
Nesta semana, o Auger também comemorou a
instalação de seu milésimo detector. Ao todo, essa
malha terá 1.600 mil deles, separados uns dos outros por 1,5 km.
Cada detector é formado por um tanque plástico (3,5 m de
diâmetro e 1,5 m de altura), contendo 12 toneladas de água
ultrapura, para evitar o crescimento de bactérias que a turvem.
Ultravioleta
Ao atravessar essa água, as partículas emitem uma luz
invisível
(ultravioleta), captada por três sensores. Imediatamente, um
sinal é
enviado, por telefonia celular, para o centro de análise de
dados. Cada
tanque tem ainda um GPS (sistema de posicionamento global) que funciona
como um relógio ultrapreciso, indicando, em bilionésimos
de segundo, o
tempo que o chuveiro aéreo levou para "aterrissar". Toda essa
eletrônica é alimentada por uma bateria e um painel solar.
Quatro "olhos", posicionados nas extremidades da rede de detectores,
investigam o céu em noites claras, mas sem luar intenso. Eles
buscam a
luz emitida pelas moléculas de nitrogênio do ar que
interagem com as
partículas do chuveiro. Cada olho contém seis
telescópios, formados por
uma colméia de espelhos que capta essa radiação
tênue e a joga sobre
440 sensores para ser amplificada. "Esse equipamento é capaz de
detectar uma lâmpada de quatro watts, como aquelas de
árvores de Natal,
a 15 km de distância", compara Carlos Ourivio Escobar,
físico da
Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) (SP) e coordenador do Auger
no Brasil, onde há oito instituições participantes.
Os resultados apresentados agora pelo Auger equivalem a apenas
três
meses de funcionamento dessa megaestrutura híbrida (tanques mais
telescópios). E ainda não permitem apontar a
direção do céu da qual
chegam os ultra-energéticos. "São resultados ainda muitos
modestos.
Precisamos de mais dados", justifica o físico norte-americano
James
Cronin, Nobel de 1980 e um dos idealizadores do projeto, juntamente com
o escocês Alan Watson. "É fundamental construir um
observatório similar
no hemisfério Norte", diz o físico da Universidade de
Chicago. Cronin
refere-se ao "gêmeo" do Auger, que começará a ser
construído no Estado
do Colorado (Estados Unidos) e investigará o céu
setentrional.
Esquisitices
Na manhã de 7 de agosto de 1962, o físico John Linsley
(1925-2002) capturou o primeiro zévatron da história.
Desde então, os teóricos tentam explicar que mecanismos
estariam acelerando os ultra-energéticos. A lista é
longa: defeitos topológicos (volumes de espaço que
"esqueceram" de explodir depois do Big Bang); estrelas de
nêutrons dotadas de campos magnéticos milhões de
vezes mais intensos que o terrestre; colisão de galáxias;
buracos negros hipermaciços; partículas ainda
desconhecidas cujos nomes lembram os vilões de filmes japoneses
(críptons, vórtons e wimpzillas). Perguntado sobre qual
opção o surpreenderia mais, Cronin não hesita: "Os
defeitos topológicos, pois é a hipótese que mais
se parece com ficção científica".
O Auger já tem três candidatos a zévatron.
"Infelizmente, o que nos pareceu mais energético caiu meio fora
da rede de detectores", explica o francês Antoine
Letessier-Selvon, responsável pela análise dos dados.
Ciência muda a cara da pequena Malargüe, cidade ao
pés dos Andes
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
O Auger reúne 16 países e congrega 250 doutores em
física e outros cem
engenheiros especializados. Obviamente, projeto de tamanho porte foi
disputado a unha por vários países. Brasil e Argentina se
juntaram para
defender que o laboratório viesse para a simpática e
pequena Malargüe,
aos pés da cordilheira dos Andes.
Porém, na reta final, a África do Sul estava forte. Na
reunião em que seria dado o veredicto final, Shellard fez uma
pergunta capciosa aos sul-africanos: caso o Auger fosse instalado
lá, a qual distância ficava a cerveja gelada mais
próxima? Resposta: cerca de 50 km. "Parece que consegui
convencer o restante da turma a votar na Argentina", brinca ele. Em
Malargüe, bebe-se uma cerveja gelada do outro lado da rua.
Impacto
Por enquanto, a origem dos raios cósmicos
ultra-energéticos continua misteriosa. Mas outro resultado do
Observatório Pierre Auger salta aos olhos: o seu impacto social
e econômico sobre a hospitaleira Malargüe.
Com 26 mil habitantes, essa cidade, com clima seco, chão de
pedra, dias
quentes e noites que pedem cobertores, viu seu dia-a-dia transformado
nos últimos dez anos, quando o Auger chegou lá. Paul
Mantsch,
pesquisador do Fermilab (Estados Unidos) e um "faz-tudo" do projeto,
explica que a relação do observatório com a
população de Malargüe tem
sido "excepcionalmente boa".
O sentimento é mútuo, dá a entender Raúl
Rodríguez, prefeito da cidade, que ocupa 42 mil
quilômetros quadrados da Província de Mendoza, no oeste
argentino. Nos últimos anos, o Auger virou atração
turística. "Tínhamos o produto neve e natureza. Agora,
temos também o produto ciência", explica ele, numa
linguagem de administrador. A razão é que muitos dos
turistas que chegam, entre junho e julho, ao aeroporto de
Malargüe, rumo a Las Leñas (famosa estação de
esqui a cerca de uma hora e meio de carro da cidade), acabam curiosos
em conhecer o quartel-general do observatório, cuja arquitetura
moderna e de extremo bom gosto se destaca na principal avenida da
cidade. Segundo Mantsch, de 500 a 600 pessoas por ano passam pelo
Centro de Visitação do Auger, onde assistem a palestras e
a filmes de divulgação.
Trabalho semelhante de divulgação é feito com os
estudantes locais. Quando os 20 alunos do quarto ano da Escola Rufino
Ortega 1/559 são perguntados sobre quem vai ser cientista quando
crescer, a resposta impressiona: 17 deles levantam a mão. Fedra,
9, diz que a sede do Auger "é muito linda por dentro". E de onde
viriam os raios cósmicos? Matías, 10, antecipa-se
ansiosamente aos colegas: "Eles vêm do espaço".
De uma hora para outra, comerciantes e principalmente garçons
passaram a ter de lidar com pessoas cujo idioma espanhol é quase
nulo. Não é raro ouvir três idiomas simultaneamente
numa mesa de restaurante. Para lidar com isso, o próprio Auger
ajudou a construir uma escola de inglês (hoje, com 500 alunos)
para a cidade. Donos de hotéis ouvidos pela reportagem
são unânimes: os negócios melhoraram muito na
última década.
O prefeito destaca, entre vários convênios internacionais
pós-Auger, aquele com a Universidade de Michigan (Estados
Unidos), o que já permitiu enviar três malargüinos
para estudar engenharia eletromecânica e ambiental. "Com o
número de cientistas que freqüentam nossa cidade, já
pensamos em abrir nossa própria universidade", revela
Rodríguez. No momento, a mais próxima fica em San Rafael,
a 200 km dali.
Feira de ciências
Sábado passado, o galpão onde os tanques-detectores do
Auger são montados abrigou uma feira de ciências de
escolas locais. Os temas abordados eram variados: de ecologia e
células-tronco a astronomia e reciclagem de metais. Pamela
Arroyo, 15, e Yesica Castillo, idem, alunas do primeiro ano do ensino
médio do Instituto Secundário Malargüe, apresentaram
uma miniatura perfeita (e que funciona a eletricidade) de moenda para o
sulfato de cálcio, substância abundante, segundo o
orgulhoso professor que as acompanha, no solo da região.
Explicam, bem ensaiadas, as vantagens do uso desse pó branco
como fertilizante agrícola. E os benefícios do Auger?
"Trouxe desenvolvimento cultural para a cidade", opina uma delas.
Gostariam de ser cientistas? A resposta vem em uníssono, como se
ambas fizessem parte de um jogral estudantil: "Seria um sonho".
(CLV)